A chegada do primeiro trem a Campina Grande, em 2 de outubro de 1907, representou muito mais do que a implantação de um novo meio de transporte. O episódio ajudou a transformar a economia, ampliar o comércio e acelerar o crescimento urbano da cidade, que se consolidaria como um dos principais centros econômicos do interior do Nordeste.
A história foi relembrada pelo professor e pesquisador Jônatas Rodrigues Pereira, do Instituto Histórico de Campina Grande, durante entrevista ao Jornal do Meio-Dia, da Campina FM, nesta sexta-feira (2), data em que a chegada da ferrovia à cidade completa 119 anos.
Segundo o pesquisador, um personagem foi fundamental para que os trilhos finalmente chegassem a Campina Grande: Cristiano Lauritzen. O político e comerciante trabalhou durante anos pela extensão da linha ferroviária até o município, chegando a viajar ao Rio de Janeiro para defender o projeto junto ao Governo Federal.
Após tentativas e dificuldades políticas, a autorização para a construção avançou no início do século XX. Em 2 de outubro de 1907, a ferrovia finalmente chegou à Rainha da Borborema.
FERROVIA IMPULSIONOU ECONOMIA DE CAMPINA GRANDE
O impacto foi especialmente importante para o comércio. A posição geográfica de Campina Grande fazia com que produtos provenientes de regiões como Cariri, Sertão, Curimataú, Seridó e Brejo convergissem para a cidade.
Entre eles estava o algodão, que ocupava posição de destaque na economia paraibana. Com os trilhos, o escoamento da produção ganhou uma ligação mais eficiente com outros mercados, principalmente Recife.
Jônatas destacou que o crescimento urbano também ganhou força após a chegada da ferrovia. De acordo com os números apresentados pelo pesquisador, Campina Grande tinha aproximadamente 731 casas em 1907 e, nove anos depois, esse número já havia dobrado.
A relação comercial com Pernambuco também se intensificou. Comerciantes e empresas pernambucanas passaram a se estabelecer na cidade, fortalecendo ainda mais Campina Grande como entreposto comercial.
O QUE ACONTECEU COM A PRIMEIRA LOCOMOTIVA?

Durante a entrevista, Jonatas também respondeu a uma curiosidade histórica: o destino da locomotiva utilizada na viagem inaugural.
Segundo as fontes pesquisadas por ele, tratava-se da locomotiva de número 3, uma máquina inglesa da Robert Stephenson. Ela teria sido utilizada de última hora na viagem inaugural entre Itabaiana e Campina Grande, em um percurso de aproximadamente 90 quilômetros.
A locomotiva continuou sendo utilizada posteriormente em outras atividades ferroviárias e teve registros em Recife. O último registro fotográfico conhecido pelo pesquisador seria de 1977. De acordo com relatos citados por Jônatas, a máquina acabou sendo cortada na década de 1980.
O pesquisador afirmou ainda que acredita que a placa de identificação de número 3 tenha sido preservada nos arquivos do Museu do Trem, no Recife.
TRANSPORTE DE PASSAGEIROS TERMINOU EM 1980
A importância econômica das ferrovias começou a diminuir especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, período marcado pela expansão das rodovias e pelo crescimento da indústria automobilística brasileira.
Em Campina Grande, segundo Jônatas, o último trem regular de passageiros passou em 1980, encerrando uma trajetória que durante décadas conectou a cidade a outras regiões. O pesquisador ressalta que esse serviço não deve ser confundido com iniciativas turísticas posteriores, como o Trem do Forró.
Agora, mais de um século depois da chegada da primeira locomotiva, a possibilidade de utilização da estrutura ferroviária para transporte urbano volta ao debate com o projeto de implantação do VLT em Campina Grande.
Para Jônatas, a ferrovia permanece como elemento fundamental para compreender como Campina Grande cresceu e se transformou ao longo do século XX.
O pesquisador mantém desde 2009 o blog História Ferroviária Paraibana, onde reúne pesquisas, documentos e informações sobre a história das ferrovias no estado.
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