A dor que persiste por mais de três meses, de forma contínua ou intermitente, pode ser considerada crônica e exige uma avaliação que vai além da intensidade do sintoma. Em entrevista ao Jornal Integração, da Campina FM, o médico neurologista, neurocirurgião e especialista em dor Luiz Severo destacou a importância de compreender as causas e os impactos da dor na rotina dos pacientes.
O tema ganha destaque durante o Julho Verde, mês dedicado à conscientização sobre a dor crônica. Segundo Luiz Severo, estimativas apontam que entre 60 e 80 milhões de brasileiros convivem com o problema. Enxaqueca, dor lombar, fibromialgia, dores neuropáticas e articulares estão entre as condições mais frequentes.
Para o especialista, um dos principais sinais de alerta é quando a dor começa a retirar qualidade de vida do paciente, prejudicando o trabalho, os estudos, a atividade física, a vida social, sexual e familiar.
“É muito mais do que a intensidade da dor. O importante é entender o que a dor tira de saúde e de qualidade de vida”, explicou Luiz Severo.
TRATAMENTO DA DOR CRÔNICA DEVE OLHAR O PACIENTE COMO UM TODO
Durante a entrevista, o médico reforçou que o cuidado não deve ser fragmentado. Apesar das diferentes especialidades médicas, pacientes com dores persistentes e incapacitantes podem necessitar da avaliação de um profissional especializado em dor.
Luiz Severo explicou que o tratamento deve considerar três pontos principais: a causa da dor, a inflamação do organismo e a forma como o cérebro processa o estímulo doloroso.
De acordo com o especialista, fatores como qualidade do sono, alimentação, sedentarismo, obesidade, estresse e saúde mental podem influenciar diretamente na persistência da dor. Por isso, o tratamento pode envolver médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, educadores físicos e outros profissionais.
Atividade física, psicoterapia, fisioterapia especializada, técnicas de respiração e meditação também podem fazer parte do plano terapêutico, de acordo com a necessidade de cada paciente.
EXAMES NEM SEMPRE MOSTRAM A CAUSA DA DOR
Outro ponto abordado pelo especialista foi a existência das chamadas dores “invisíveis”. Segundo Luiz Severo, exames como ressonância magnética, tomografia e ultrassom são importantes, mas nem sempre conseguem explicar a origem do sofrimento do paciente.
O médico ressaltou que dor não significa necessariamente a existência de uma lesão estrutural. Uma hérnia de disco identificada em um exame, por exemplo, nem sempre é a verdadeira responsável por uma dor lombar.
“A maioria das dores não está nos exames, está na história. Toda dor tem uma história”, afirmou.
Por isso, a avaliação clínica detalhada e a compreensão da rotina do paciente são fundamentais para definir um tratamento adequado.
USO EXCESSIVO DE ANALGÉSICOS PODE DIFICULTAR O TRATAMENTO
Luiz Severo também chamou atenção para o uso frequente de medicamentos para aliviar a dor sem uma investigação da causa. No caso das dores de cabeça, por exemplo, o uso excessivo de analgésicos pode estar relacionado à cefaleia crônica diária.
Segundo o médico, o medicamento pode reduzir temporariamente o sintoma, mas isso não significa que a doença responsável pela dor esteja sendo tratada.
Com o tempo, o cérebro pode se acostumar ao processamento constante da dor, fenômeno relacionado à chamada memória da dor. O especialista alertou que ansiedade, depressão e alterações do sono também podem estar associadas a esse processo.
NEUROMODULAÇÃO GANHA ESPAÇO NO TRATAMENTO
A neuromodulação foi outro tema destacado durante a entrevista. A técnica utiliza diferentes estímulos para modificar a maneira como o sistema nervoso responde à dor.
Estímulos elétricos, magnéticos, táteis, visuais e luminosos podem ser utilizados em tratamentos específicos. Luiz Severo explicou que técnicas mais simples, como exercícios respiratórios, ioga e algumas terapias manuais, também podem atuar na regulação do sistema nervoso.
Segundo o especialista, o objetivo é reorganizar a resposta cerebral, especialmente em pacientes que convivem com dores persistentes.
CIRURGIA DEVE SER EXCEÇÃO NOS CASOS DE DOR LOMBAR
Neurocirurgião especializado em coluna, Luiz Severo afirmou que a cirurgia deve ser indicada apenas em situações específicas. Ele relatou que, entre aproximadamente 2,5 mil pacientes com dor lombar atendidos no ano anterior, apenas um precisou de cirurgia aberta na coluna.
Fraturas, tumores e casos de compressão neurológica grave estão entre as situações que podem exigir intervenção cirúrgica. Perda de força, alterações para caminhar, perda do controle urinário e dormência persistente em regiões específicas são sinais que necessitam de avaliação médica urgente.
Para a maioria dos pacientes, o tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, atividade física orientada, fisioterapia, controle do peso, melhora do sono e cuidados com a saúde emocional.
“Nós não tratamos exames, tratamos pessoas”, reforçou o especialista.
DOR APÓS CHIKUNGUNYA E PIORA NO FRIO
Respondendo aos ouvintes da Campina FM, Luiz Severo também comentou sobre as dores persistentes após a chikungunya. Segundo ele, a doença pode provocar um processo inflamatório prolongado no organismo.
O médico explicou ainda que dores musculares e articulares podem apresentar piora durante períodos frios. A rigidez das articulações, o aumento da sensibilidade do sistema nervoso e a redução da atividade física são fatores que podem contribuir para o desconforto.
TRAVESSEIRO PODE INFLUENCIAR DORES DE CABEÇA
A escolha do travesseiro também foi tema da entrevista. Luiz Severo explicou que mais importante do que o material é observar a altura e o alinhamento da cabeça com o pescoço e o tórax.
Um travesseiro muito baixo ou muito alto pode aumentar a tensão da musculatura posterior da cabeça e estimular nervos relacionados à dor. A recomendação é buscar uma posição em que a cabeça permaneça alinhada durante o sono.
Ao longo da entrevista, Luiz Severo reforçou que pacientes com dores persistentes devem buscar avaliação profissional e evitar tratamentos baseados exclusivamente no alívio momentâneo do sintoma. Para o especialista, compreender a origem da dor e construir um plano terapêutico individualizado são passos fundamentais para recuperar a qualidade de vida.
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